domingo, 15 de junho de 2014

“Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20)


A importância da devoção ao Coração de Jesus



Neste texto pretendemos mostrar como, na vida da Igreja e do mundo, a devoção ao Coração de Jesus tem sido uma expressão de fé iniludível a ter em conta, a abraçar ou a rejeitar. Experimentar o amor de Deus dirigindo o olhar ao coração transpassado de Cristo na cruz nunca pode nos deixar indiferentes: na relação com o seu coração está em jogo o centro da espiritualidade cristã. Trata-se de levar a cabo a recomendação de São Paulo: “tende os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5).
Cada época, com sua fé e sua cultura, fez emergir formas de devoção; algumas, contudo, não resistiram ao desgaste do tempo. Ora, em que sentido é que a devoção ao Coração de Jesus não será uma forma ultrapassada de expressão de fé, própria de outras épocas e culturas, tampouco uma forma de piedade por demais sentimental, intimista e inconsistente?
Para responder, parece-nos sugestivo partir da revelação bíblica. Uma coisa é certa: com profundas raízes bíblicas, a espiritualidade do Coração de Jesus, classificada por Pio XI como “a síntese de toda a religião cristã”, é capaz de atravessar os sulcos da história, ultrapassar culturas, épocas e costumes e permanecer para sempre. Uma vez considerados à luz da Sagrada Escritura os elementos constitutivos desta devoção, poderemos apreciar melhor a importância que a devoção ao Coração de Jesus adquiriu na fé cristã.
Na verdade, o culto augusto ao Coração de Jesus sugere, antes de tudo, uma proximidade íntima e meiga com Jesus, que proclama: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Invocá-lo desta forma significa, então, seguir suas orientações e também saber estabelecer relações fraternas, a ponto de tornar-nos mais disponíveis para uma vida em prol dos outros. Quem se deixa amar por Deus, que tem um rosto concreto, o de Jesus, este que ama “com um coração de homem” (GS 22), entra precisamente na escola do amor do Coração de Jesus. Nela, não é apenas o conteúdo, mas também o modo de ensinar do Mestre, que tem muito a nos dizer ainda hoje. Jesus não impõe sua vontade nem obriga a ninguém a acolher sem mais seus ensinamentos. Todavia, mediante gestos e palavras estabelece uma comunicação direta e pessoal que, se for aceite, torna-se comunhão, intimidade, amizade.
É significativo a este respeito o testemunho de alguém que tudo fizera para viver uma comunhão íntima de sentimentos com os de Cristo Redentor, São João Paulo II. Para ele, “A Nova Evangelização, à luz do Sagrado Coração de Jesus, deve conscientizar o mundo de que o Cristianismo é a religião da misericórdia e do amor.”
Nos dias atuais, longe de se limitar a piedosas práticas vividas na intimidade e no silêncio, é urgente anunciarmos aos corações o Coração de Jesus, para que este seja mais conhecido e amado. Aquele que de fato é um apóstolo do Coração de Jesus tem como penhor uma promessa de salvação: seu nome gravado para sempre no Livro da Vida (Ap 3,5). Em outras palavras, é ter seu nome inscrito no Coração de Jesus, que, aberto, jorra sangue e água (Jo 19,33). Bem pôde Teilhard de Chardin dizer que “no coração do universo está um coração, o Coração de Cristo, que só nos pode amar e nos quer salvar.” Na realidade - e os vinte séculos de história estão para atestá-lo -, tinha toda a razão São Paulo, quando, apoiando-se em sua própria experiência, declarou: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

Ismael Weiduschath

Seminarista da Arquidiocese de Florianópolis
Bacharel em Filosofia e Graduando em Teologia

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