segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Santidade e Combate Espiritual


A principal intenção da beata Elena Guerra nas correspondências que dirigiu ao papa Leão XIII, no final do século XIX, era relembrar a necessidade de invocação do Espírito Santo para a santificação dos fieis e renovação da face da terra. Ao dirigir sua primeira carta ao sumo pontífice, ela escreve: “Santo Padre, o mundo é mal, o espírito de satanás triunfa na pervertida sociedade e uma multidão de almas se distancia do Coração de Deus. [...] Somente o senhor pode fazer com que os cristãos retornem ao Espírito Santo, para que o Espírito Santo retorne a nós, abata o domínio do demônio e nos conceda a desejada renovação da face da terra.”[1]
Além da clara intenção de colocar em relevo a reflexão, culto e devoção ao Espírito Santo, percebemos implícito em sua obra, uma preocupação com aquilo que diz respeito ao combate espiritual que enfrenta diariamente todos os fiéis. Nesse combate, estaria, de um lado, o espírito de satanás que procura perverter a sociedade e fazer perder as almas; e de outro, o Espírito de Deus, que “abate o domínio do demônio”, ou seja, livra-nos da servidão do pecado, e “renova a face da terra”, isto é, transforma a sociedade pervertida em “novo céu e nova terra”.
É interessante notar que dentre tantos temas relevantes e que poderiam ser tratados pela Beata em sua comunicação com o Papa, ela tenha começado justificando a necessidade de um clamor ao Espírito Santo para o enfrentamento do Maligno. Essa doutrina de Elena Guerra encontra respaldo na verdade do Evangelho em que Jesus diz: “Se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus.” (Mt 12,28).
O Concílio Vaticano II procurou deixar claro a existência de um combate espiritual quando falou que “uma luta árdua contra o poder das trevas perpassa a história universal da humanidade. Iniciada desde a origem do mundo, vai durar até o último dia, segundo as palavras do Senhor (Mt 24,13; 13,24-30.36-43). [...] No entanto, continuam os padres conciliares, o homem não consegue alcançar a unidade interior senão com grandes labutas e o auxílio da graça de Deus.”[2]
O Espírito Santo, graça de Deus oferecida aos homens, é a “força do alto” (Lc 24,49) na luta contra o Maligno. Podemos dizer que o Espírito é Deus em sua força, agindo em nós e nos concedendo vitória sobre todo mal.
Sem o Espírito Santo, nossa ação é ineficaz na luta contra o Mal
O Espírito age no homem, movendo-o na luta contra o Mal. É no Espírito e por meio dEle que o homem torna-se capaz de sair vencedor desse combate. Um grande erro da humanidade é imaginar-se capaz de vencer a luta contra o mal sem o auxílio da graça, sem querer contar com o auxílio do Espírito de Deus. Escravizado pelo pecado, o homem ficou em “servidão debaixo do poder daquele que tinha o império da morte, isto é, do Diabo.” (CIC 407). O Magistério chama de “natureza lesada, inclinada ao mal” a realidade humana marcada pelo pecado. O pecado “fere a natureza do homem” (CIC 1849) e o enfraquece, tornando-o incapaz de, sozinho, vencer essa batalha. O pecado é, nesse sentido, a arma que o demônio usa para enfraquecer os filhos de Deus. Ao pecar, o homem “ofende a Deus” e “desvia dele o seu coração”[3]. Distante de Deus, fechado em si mesmo, torna-se um artífice da maldade.
Foi esta clara noção de distanciamento do homem do Coração de Deus que levou Elena Guerra a requerer e rezar por uma nova vinda do Espírito Santo. “Este funesto poder do espírito maligno sobre o mundo durará até que o Espírito Santo venha renovar a face da terra”[4], dizia a Beata.
Santidade, arma eficaz contra o demônio
Se o pecado é a arma do demônio contra nós, o Espírito Santo é a nossa força e o poder santificador na luta contra o pecado. Jesus, o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, enviou-nos o seu Espírito a fim de que fôssemos, assim como Ele, vencedores sobre todo Mal. Escreve Sto. Ambrósio: “O Senhor, que arrancou vosso pecado e perdoou vossas faltas, tem poder para vos proteger e vos guardar contra os ardis do Diabo que vos combate, a fim de que o inimigo, que costuma engendrar a falta, não vos surpreenda. Quem se entrega a Deus não teme o Demônio.”[5]
Como podemos ser protegidos e guardados contra os ardis do diabo nesse combate? Entregando-nos a Deus! “Quem se entrega a Deus não teme o demônio.” Todos aqueles que viveram essa realidade de entrega total a Deus saíram vencedores dessa batalha. Como uma criança não teme ao agressor quando está junta de seu pai, não pode temer ao demônio uma alma que está unida a Deus. Se o pecado é o que nos distancia de Deus, o Espírito Santo é quem nos reaproxima do Coração de Deus.
São João da Cruz observa que o diabo persegue principalmente as almas unidas profundamente a Deus, e especialmente seus místicos e contemplativos, porque não suporta que eles possam viver aqui embaixo na intimidade com Deus. Além disso, satanás sabe como é grande a influência desses amigos de Deus sobre os homens; assim, impedir o progresso espiritual dessas almas enamoradas de Deus equivale a retardar o caminho de muitas outras.[6]
E o que significa entregar-se a Deus senão deixar-se possuir e guiar por seu Espírito? Como poderá a alma permanecer unida a Deus, numa profunda intimidade, sem o auxílio do Espírito Santo? Só o Espírito será capaz de nos tornar “amigos de Deus”! Viver a vida nova no Espírito significa renunciar a satanás e deixar-se plenificar da graça santificante do Espírito.
Jesus Cristo, por meio de sua paixão, morte e ressurreição, justificou-nos de nossos pecados e nos deu acesso ao Reino de Deus. O Espírito Santo, paráclito do Pai, guia-nos por este Caminho aberto pelo Cristo e recoloca-nos, especialmente por meio dos sacramentos, em harmonia com Deus. Aquilo que o demônio roubou-nos quando pecamos, Jesus nos restituiu dando-nos o seu Espírito, “penhor de nossa herança” (Ef 1,14).
Eis a missão do Espírito Santo em nós: fazer-nos santos! Conduzir-nos pelo caminho de santidade, livrando-nos de todas as ciladas do Maligno e manter-nos livres da escravidão do pecado.
A Beata Elena Guerra demonstrou ter uma consciência bastante clara quanto à necessidade de acolhimento do Espírito Santo como agente santificador e condutor das almas ao Coração de Deus. Sabia que somente pelo Espírito é possível chegarmos à perfeição. “É o Espírito Santo que faz os santos!”[7], dizia a Beata, repetindo frequentemente a expressão como um sonoro refrão em seus escritos espirituais.
Quando falamos em combate espiritual, ficamos sempre inclinados a imaginar um campo de batalha, exterior a nós, um lugar onde se trava uma guerra contra “as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef. 6,12). Mas o principal campo de batalha onde somos convocados a combater é aquele que existe dentro de nós mesmos, onde a derrota poderá significar a condenação eterna...
Somos habitados pelo Espírito de Deus e não por satanás. No entanto, é dentro de nós, pelas brechas abertas pelo pecado que o mal procura se instalar, seduzindo-nos a cometer ofensas contra Deus. Precisamos continuamente do Espírito Santo para sermos santos! É preciso viver em santidade para não cair em tentação. No combate espiritual que enfrentamos somente os santos conseguem sair vencedores.
Veni, Sancte Spiritus!
Fonte: José Rogerio Soares dos Santos -Pres. Conselho Estadual RCCSP - Brasil

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